O lar
muitas vezes não é aquele paraíso seguro e de felicidade
que muitos idealizam, a violência doméstica, no contexto
do lar faz parte do dia a dia de muitas mulheres. Não é
um mal social novo. Nos tempos Medievais e no início da Era da
Industrialização, a violência contra as mulheres era
um aspecto tido como normal no casamento.
Nos finais do século XIX não existiam leis que proibissem
a uma pessoa espancar o seu parceiro, desde que daí não
resultassem ferimentos graves.
O recurso à lei por parte de pessoas sujeitas a violência
e maus-tratos é bastante difícil, ainda que se fale muito
sobre o assunto e em teoria elas tenham acesso a protecção.
Na realidade, apesar de terem melhorado de estatuto, o recurso à
lei nestes casos é bastante difícil. De um modo geral a
atitude da polícia é a de não intervenção
em “disputas domésticas” e revela-se muitas vezes inútil.
Quando a polícia é chamada a intervir num caso de violência
doméstica, tende a restringir a sua acção no sentido
de acalmar os ânimos, em vez de incentivar a que a vítima
proceda a uma queixa contra o agressor.
As pessoas que são vítimas de violência doméstica
têm muita dificuldade em abandonar o lar e estas vão desde
as económicas, sociais, até à responsabilidade que
sentem perante os filhos.
Estas pessoas, embora sendo agredidas sistematicamente, continuam a coabitar
com o agressor, pois no nosso país existem poucas estruturas de
apoio para estes casos. Saem de casa e vão viver para onde? E os
filhos, quem é que cuida deles? Existem casas de acolhimento suficientes
para o número de casos existentes em Portugal?
Os departamentos governamentais encarregues de proceder à distribuição
de casas às vítimas de agressão física, têm
tendência para pensar que há um certo exagero por parte dos
queixosos, com o objectivo de conseguirem um alojamento alternativo.
Na realidade constata-se que a vítima, para provar o quanto é
maltratada, passa por inúmeras humilhações: primeiro
dirige-se à policia onde para fazer queixa, tem que relatar em
pormenor todo o sofrimento e actos de violência de que foi vítima,
tem que se submeter a exames médicos, para comprovar a veracidade
dos maus-tratos físicos que lhe foram infringidos, aí mais
uma vez se sente humilhada, tanto nos hospitais como na polícia,
pois nem sempre há pessoal especializado para tomar conta deste
tipo de ocorrências, o que dificulta muito a vida da vítima.
A violência doméstica é inaceitável e uma conduta
que afecta todos os membros de uma família, é ilegal e ocorre
em todas as classes sociais.
O que é a violência domestica?
Ela envolve um mau trato psicológico, emocional, físico
e sexual por parte de alguém que vive na mesma da vítima.
O homem maltrata a mulher, ou vice-versa, independentemente da vítima
o provocar ou não.
Existe um mito de que é a vítima que provoca o mau trato.
Durante o acto de violência, manifesta-se um aumento de poder do
agressor em relação à vítima, demonstrado
através de palavras e actos.
Em casos de divórcio é declarado com frequência a
existência de violência física.
A violência acontece de uma forma gradual: palavrões, empurrões,
humilhação, queimaduras, feridas, ossos deslocados ou partidos,
ameaças, uso de arma e infelizmente como todos podemos constatar,
a morte.
Sintomas e indícios de violência doméstica:
Dependência, controle e poder.
Muitos homens proíbem terminantemente a mulher de trabalhar fora
de casa, de falar com amigos, familiares, vizinhos. Desta forma o abusador
transforma-se na única fonte afectiva e financeira, criando assim
a dependência absoluta da vítima em relação
a ele.
O que leva uma pessoa a agredir o seu companheiro?
Segundo alguns especialistas o perfil psicológico do agressor é
o de um indivíduo emocionalmente imaturo e possessivo. Exalta-se
facilmente, briga por motivos fúteis e reage com muita frequência
como se fosse uma criança, que “destrói” o brinquedo,
quando este o desagrada.
É frequente o agressor mostrar um perfil psicopático, demonstrando
medos diversos e a mania da perseguição.
Durante a crise a vítima é barbaramente espancada, pois
é a válvula de escape para os seus “fantasmas”.
Em alguns casos possuem o complexo de Édipo exacerbado, são
do tipo “bate e pede desculpa”. A relação de
amor-ódio que sente pela mãe é transportada para
a mulher. A seguir a uma monumental tareia, confessa-se arrependido, jura
que não lhe volta a bater. Demonstra através de palavras
e carícias que a ama muito e deseja fazer amor com ela, como uma
forma de reconciliação. Muitas mulheres são apanhadas
nesta armadilha, depois dos maus-tratos, vem a relação sexual.
Toda esta situação, faz subir a adrenalina e as pessoas
ficam dependentes física e mentalmente desta situação.
É por isso que muitas mulheres, levam tareias com frequência,
mas não conseguem viver sem o agressor, ficaram presas física
e psicologicamente, neste jogo de amor – ódio.
Estas pessoas só conseguiram quebrar este ciclo doentio, com a
ajuda de pessoal especializado nesta área específica.
De um modo geral o agressor sente que tem sempre razão, é
muito autoritário e sente-se ameaçado sempre que o seu companheiro
dá a sua opinião. No caso deste ter razão, a situação
agrava-se, pois ele não aceita que está errado, agride o
outro como uma forma de se impor.
Outros são movidos a álcool, sob o efeito da bebida fazem
o que lhes passar pela cabeça. Desta forma libertam-se das inseguranças,
incompetência e insatisfação, sejam elas devido ao
trabalho ou das suas relações de amizade ou amorosas. Em
casa, a bebida age de uma forma impulsionadora da agressividade, dando-lhes
a falsa sensação de poder. O companheiro é o bode
expiatório de todos os seus sentimentos reprimidos.
Quando o casal tem uma vida sexual insatisfatória e o homem tem
dificuldade em manter a erecção ou tem ejaculação
precoce, não se satisfazendo a si próprio nem à sua
companheira, a frustração que sente dão lugar à
violência, acusa a mulher destes factos. Existem também alguns
homens que no momento do orgasmo, agridem a mulher física e verbalmente,
como meio de atingirem um maior prazer e desta forma submeter e humilhar
a mulher ao seu poder superior.
Há também homens que agridem a mulher por se sentirem socialmente
inferiores a esta. Inseguros em relação à sua masculinidade
devido a insucessos na vida profissional ou por se sentirem muito à
quem das expectativas que têm deles próprios. Em casa uma
opinião da mulher, ou até uma pequena brincadeira fá-lo
sentir-se ofendido. A única maneira que encontra para impor os
seus pontos de vista e desejos é através da violência.
O que leva a vítima a tolerar a agressão física por
parte do companheiro
As pessoas que apanham tareias do companheiro, de uma forma repetida,
são, de certa forma, cúmplices da situação.
Normalmente desde a infância que viveu com cenas de violência
e castigos físicos. De uma forma inconsciente, na vida adulta,
repete as relações que viveu e viu viver em criança.
Quando chega a altura de escolher um parceiro, opta normalmente pelo tipo
agressivo, por aquele que demonstra mais “força” para
enfrentar os problemas que a vida lhe ponha.
É o tipo de pessoa que admira um companheiro brigão, isto
para ela representa que será protector. De um modo geral este tipo
de casamento acaba na relação amor-ódio e em cenas
de pancadaria quando a relação começa a desgastar-se.
Para outras vítimas pode ser uma herança educacional, elas
podem ter sido acostumadas a ver a agressão como forma de afecto,
protecção e carinho. Estas pessoas podem interpretar uma
agressão, como um acto de amor e protecção.
Há também o caso das pessoas que apanham por estarem acomodadas
financeiramente, estes casos dão-se sobretudo com mulheres, uma
vez que estas têm tendência a ficar em casa, limitando-se
a criar os filhos. Estas mulheres sentem-se incapazes de se sustentarem
a si próprias e aos seus filhos e assim não rompem com o
parceiro. São em muitos casos impedidas de trabalhar pelo seu companheiro,
para desta forma mais facilmente as manterem como reféns. Provavelmente
em crianças foram educadas de forma a sentirem-se incapazes de
viver sem a protecção económica de um homem.
Outras há que são agredidas por sentimento de culpa, sentem-se
culpadas de não terem sido capazes de realizarem um casamento perfeito.
Estas de uma forma geral sofrem a violência doméstica em
silêncio, escondem da família, dos amigos e dos vizinhos
os sofrimentos que o companheiro lhes impõe. Como o objectivo era
ter um casamento feliz, recusa-se a admitir que escolheu a pessoa errado.
Apesar de ser maltratada física e verbalmente, depois de cenas
de grande violência, ainda se mostra dócil e carinhosa para
com o companheiro.
Alimenta a secreta esperança de que ele mude de atitude, estas
pessoas levam muito tempo a tomar consciência da realidade, pois
ninguém muda ninguém.
Uma pedra no Charco
Romper com o silêncio é sem duvida o caminho para ajudar
a acabar esta situação infame em que muitas mulheres se
encontram.
Há pessoas que são agredidas, que se calam e que escondem
a agressão, por sentirem vergonha. Outras afastam-se gradualmente
de amigos, familiares e vizinhos, isolam-se para desta forma esconder
os maus-tratos de que são vítimas. Mas ao procederem assim,
tornam-se mais vulneráveis e ficam à mercê do agressor.
Outras são dependentes economicamente e têm medo de novas
agressões, reduzindo-se ao silêncio. Esta atitude só
encoraja o agressor a que se sinta impune e à vontade para repetir
as agressões que muito bem lhe aprouverem.
Estes e outros preconceitos, a dependência económica em relação
ao agressor, a dificuldade em aceitar que um casamento acabou e o medo
de novas agressões, são alguns dos motivos que impedem as
vítimas de tornar o seu problema público e tomarem medidas
para se protegerem.
O primeiro passo para acabarem com estas situações é
romper a barreira do silêncio.
Contactos úteis:
Associação Portuguesa de Apoio à
Vítima
Tel(s): 21 888 47 32; 21 887 63 51 c/ fax
Associação de Mulheres contra a Violência
Tel(s): 21 851 12 23 c/ fax
Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres
Tel(s): 21 798 30 00 Fax: 21 798 30 99
Centro SOS – Voz Amiga
Tel: 21 354 45 45
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